O gnu e o leão, um conto tecnológico

Esta é uma história que não começa com "era uma vez" e não termina com "e viveram felizes para sempre". Esta história é sobre a selva de concreto, é sobre o mundo selvagem no qual vivemos. Esta é uma história sobre as coisas feias que acontecem atrás do palco enquanto o espetáculo continua.

 

Começou na época em que computadores pessoais não eram um produto de consumo e alguns nerds tentavam vendê-los para ficar ricos. Era uma luta entre a ciência e os negócios, entre o conhecimento e o poder, entre a coisa certa a se fazer contra a perspectiva de lucros sem precedentes. (Uma breve introdução à história dos software de computadores).

 

Se você não assistiu "Os piratas da Silicon Valley" (em inglês) talvez você não saiba o que era ser um nerd nos anos 70 e como que alguns deles acabaram virando os predadores no campo tecnológico. O filme está entre um documentário e uma ficção, pegando eventos reais e dramatizando um pouco.

 

Entre os gigantes como a Apple, a Microsoft, a IBM ou a Xerox, tinha um programador que escolheu a liberdade em vez de entrar na guerra pelo lucro. Ele decidiu de escrever programas e dar o código fonte de graça. A ideia era de permitir a outros programadores de ler e melhorá-lo, formando assim uma comunidade com objetivos compartilhados. Ele defendia a ciência e o compartilhamento de conhecimentos, se recusando a usar seu conhecimento para manipular e controlar aqueles que não o tinham. Ele criou a Fundação do Software Livre e o sistema operacional GNU. Este homem, Richard Stallman, provavelmente pensou que o Software Livre e o GNU seriam uma escolha óbvia para a indústria da tecnologia e que as pessoas quebrariam as correntes do software proprietário para serem livres. Hoje, os sistemas operacionais GNU/Linux ainda estão longe disso e representam talvez 1% do mercado de sistemas operacionais.

 

Imagino que, para Stallman, defender para a liberdade do software deve ser um pouco como tentar convencer as vacas de se rebelar contra os açougueiros ou, melhor ainda, empurrar os gnus a lutar contra os leões. Parece que quase 30 anos de luta pela liberdade endureceram o coração dele com rancor em vez de libertá-lo com a paz de espirito de saber que ele esta fazendo a coisa certa (A tragédia humana por trás do Software Livre).

 

No site pessoal dele, RMS fez uma declaração bem amarga (embora temos que dar-lhe crédito por ser transparente e não medir suas palavras) sobre a morte de Steve Jobs. Eis o texto completo :

 

“Steve Jobs, the pioneer of the computer as a jail made cool, designed to sever fools from their freedom, has died.
As Chicago Mayor Harold Washington said of the corrupt former Mayor Daley, "I'm not glad he's dead, but I'm glad he's gone." Nobody deserves to have to die - not Jobs, not Mr. Bill, not even people guilty of bigger evils than theirs. But we all deserve the end of Jobs' malign influence on people's computing.
Unfortunately, that influence continues despite his absence. We can only hope his successors, as they attempt to carry on his legacy, will be less effective.”

Tradução:

Steve Jobs, o pioneiro do computador como uma prisão que parece legal, projetada para cortar os tolos da sua liberdade, morreu.
Como disse o prefeito de Chicago, Harold Washington do corrupto ex-prefeito Daley, "Eu não estou contente que ele está morto, mas estou contente que ele se foi." Ninguém merece ter que morrer - nem Jobs nem, o Sr. Bill, nem mesmo pessoas culpadas de males maiores do que o deles. Mas todos nós merecemos o fim da influência maligna de Jobs na computação das pessoas.
Infelizmente, essa influência continua, apesar de sua ausência. Só podemos esperar que seus sucessores, ao tentar levar adiante o seu legado, serão menos eficazes.

 

Sabemos que a Apple não gosta do GNU/Linux por ser um sistema operacional que compartilha muitas das ventagens dos sistemas de tipo UNIX... de graça (Porque o Linux e o Mac não tem virus?). Também sabemos que o Stallman não gosta da Apple por ser uma empresa que faz de tudo para manter seus computadores fechados. Se você já tentou instalar um sistema GNU/Linux em um Mac você sabe do que estou falando. Em todo caso, fora do seu contexto, a franqueza de Stallman fica mal colocada e mal entendida. Como disse antes, esta é uma história triste. Gostaria que o Jobs ainda estivesse conosco e gostaria que o Stallman pudesse encontrar força em ser um pouco mais conciliador, especialmente nestas circunstâncias.


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