A tragédia humana por trás do Software Livre

Uma das coisas mais interessantes sobre o mundo do Software Livre são as histórias, jogos psicológicos e a tragédia humana que se desdobra diante dos teus olhos enquanto você vai descobrindo este universo. Não há uma única pessoa que concorde inteiramente com outra, graças à liberdade existem tantas opiniões quanto usuários. Ao contrário do software proprietário, onde as opiniões são apenas alguns tópicos em um fórum (discussões impotentes sobre as decisões de uma empresa), as opiniões sobre Software Livre tomam vida e se materializam em programas enquanto ativistas se posicionam sobre tal ou tal coisa no mundo real. Eu vou me aventurar aqui em águas turvas pois vou estar falando da minha própria opinião e abrindo as portas para a crítica dos milhões de usuários que discordam de mim.

A criação do movimento do Software Livre é talvez uma das iniciativas mais inspiradoras e belas de toda a história da informática. Contra todas as probabilidades, Richard Stallman tomou o caminho mais contra intuitivo de desenvolvimento de software, abriu mão da ganância e do ego para criar uma comunidade verdadeiramente colaborativa que distribui gratuitamente o fruto do seu árduo trabalho. Acho improvável que alguém tomasse uma iniciativa desta magnitude hoje em dia. Talvez foi porque na época o movimento hippie ainda estava presente ou talvez porque ele estava simplesmente no lugar certo, na hora certa, para compreender as questões do software proprietário. No entanto, qualquer que seja a razão, Richard Stallman anunciou o movimento do Software Livre e inspirou muitas outras pessoas a trabalhar para o bem da comunidade em vez do lucro individual. Ele foi o pioneiro neste sentido e o mínimo que ele deveria receber são os créditos por tê-lo feito. Estranhamente, o sistema operacional livre hoje é chamado de Linux e não GNU. Apesar do fato que Richard é muito insistente em chamar o kernel Linux e o sistema operacional como um todo de GNU/Linux, a realidade é que o nome GNU/Linux nunca vai pegar porque é mais comprido de dizer e soa estranho. Além do mais, as pessoas já ficam suficientemente confusas de descobrir que há outros sistemas além do Windows para começar a considerar nomes que contém uma barra no meio. Vamos ser francos também sobre o fundo da questão do Software Livre, dar a todos o direito de usar e modificar os programas, também dá o direito a usá-lo em um kernel Linux e o kernel é talvez o único componente de software que todas as distribuições usam com certeza. O sistema GNU e o kernel Linux simplesmente se dão muito bem juntos e Linux foi o nome que as pessoas começaram a usar para se referir ao sistema operacional. Linux teve um impulso inicial forte (graças aos programas GNU também) e criou o movimento.

Uma questão ainda permanece em minha mente, por que o projeto GNU não começou com a construção do kernel? Sendo que Richard afirma hoje que ele não usa nenhum software que não seja livre, então porque não começar com o primeiro software necessários para executar um sistema operacional? Talvez seja porque o sucesso do GNU dependia de sua visibilidade, e a visibilidade é obtida com software utilitário. Eu não sei, realmente.

Richard também afirma que o Linux não é um sistema operacional, mas apenas um componente essencial. Linus Torvalds por outro lado afirma que pretendia ser, e é, um sistema operacional. O fato de que o kernel do Linux aproveita de todos os software do repositório GNU não diminui a idéia de que é na verdade a base mesmo de um sistema operacional. Linus não aceita o termo GNU/Linux de modo geral e ele é, de longe, a pessoa que mais recebe crédito do nome Linux. Por mais brilhante que tenha sido a sua contribuição para um sistema operacional livre, Linus é superestimado. Não vamos esquecer que além da disputa de créditos entre os dois homens, há centenas de outros desenvolvedores que contribuíram também. Seus nomes ninguém nem ouviu falar.

Free software vs open source

Para piorar as coisas para Richard, o movimento do Software Livre se dividiu em ramos com a criação do movimento Open Source. Quando você ouve Bruce Perens falar sobre Open Source você quase não vê a diferença com Software Livre. Open Source é realmente uma coisa estranha, mas faz sentido, afinal. Ele leva o modelo de desenvolvimento do Software Livre para dentro das empresas. Parecem objetivos completamente opostos mas ajudaram a fazer com que empresas aceitem e comecem a investir em software de código aberto para depois compartilhar. Mais uma vez, Richard teve seus créditos apagados, não só GNU é chamado de Linux, mas agora Software Livre é chamado de Open Source...

A verdadeira tragédia é perceber como a ideologia e o coração do movimento fica escondido pela sombra dos seus derivados mais comerciais, voltados aos negócios. Não há nenhum desenho de um gnu musculoso em cima de um pinguimzinho que possa mudar essa realidade. É apenas um fato infeliz ou é como as coisas são? É surpreendente e um tanto sintomático de ver como as pessoas, mesmo especialistas, não têm claramente em mente as definições de Software Livre, Open Source, Freeware e Shareware. Estas palavras são frequentemente confundidas e usadas uma no lugar da outra. A verdade é que as pessoas realmente não se importam com todas estas discussões, desde que possam continuar usando seu computador para as coisas de seu interesse. Será que realmente vale a pena afinal de lutar pelas liberdades das quais as pessoas não se importam? Eu acredito que sim e que um dia seremos gratos a todos aqueles que lutaram por nossa liberdade sem nunca termos percebido nem reconhecido a sua importância.

 


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